12 de jun. de 2013

O casamento e o vaso chinês

Um dia há muito tempo atrás, um homem e uma mulher receberam um presente precioso, de um sábio amigo e que eles chamavam de Pai.

Este presente era um raríssimo vaso de porcelana chinesa e que devia representar para eles o símbolo daquela união entre dois seres, que naquele momento, aparentemente se amavam.

Contudo os dias passaram e num momento de descontrole, aqueles dois seres, numa fração de desequilíbrio e de raiva brigam e aquilo que parecia amor eterno num determinado momento, era agora ódio e desentendimento.

O vaso precioso que simbolizava aquela união foi jogado ao chão e os cacos foram usados para ferir, um ao outro. Aquele encontro naquele momento não tinha mais jeito e para evitar conseqüências piores os dois resolvem seguir os seus caminhos separados. era melhor separar algo legalmente o que de fato já estava separado. E assim seguiu a vida...

O mundo girava e o tempo passou, algumas dezenas ou centenas de anos, rolaram pela ampulheta do tempo e um dia num novo local, num novo país, os mesmos dois seres imortais se encontram novamente. Eles recebiam mais uma oportunidade, neste nosso planeta de provas e expiações, para se redimirem e corrigirem os desencontros do passado. É claro que eles não lembravam o passado de maneira consciente, mas sentiam que havia algo em comum. O encontro fortuito de um dia, seguidos de outros encontros, olhares e sorrisos que sinalizavam um interesse de parte a parte, serviram para selar uma nova união.

Depois de alguns meses de envolvimento, de planos e promessas mútuas resolvem eles se unirem pelos laços sagrados do casamento, segundo os costumes e rituais da época presente.Agora eles viviam um união indissolúvel, até que a morte os separasse, ao menos assim pensavam eles naquele momento.

Mal sabiam eles que o vaso chinês que tinham recebido no passado distante e que devia simbolizar o amor eterno havia sido quebrado. Eles recebiam nova oportunidade de voltarem ao mundo da matéria, mas agora com o compromisso de juntarem os cacos do vaso quebrado e tentarem colar pecinha por pecinha, até a sua reconstrução completa.

Esta tarefa inconsciente a ser realizada pelo casal de amigos, no inicio da união parecia fácil, mas saibam vocês que juntar caquinhos de porcelana, pode ferir os dedos, cortar a pele, machucar, sangrar e as vezes doer muito. Quando isto aconteceu na união dos nossos amigos, eles sofreram muito, sendo que muitas vezes pensaram em jogar todas as peças do vaso novamente no lixo, porque afinal ainda não seria possível continuar e muito menos concluir a tarefa mais uma vez empreendida.

Contudo neste momento eles sem o saberem de maneira consciente receberam do Pai um recipiente de cola , que iria ajudá-los na reconstrução. Esta cola era quase mágica, pois alem de colar o vaso quebrado ajudava a curar as feridas provocadas pelos cortes, superficiais e também os profundos, onde antes sangrava e doía, agora já se encontrara a cura.

Este recipiente divino de cola medicinal se chama "Evangelho Segundo o Espiritismo", que trazia para os nossos amigos o esclarecimento e o consolo para as suas mazelas e suas dores. Questões que antes não tinham respostas agora eram compreendidas. Dores e aflições continuavam a existir, só que agora eles compreendiam os motivos das mesmas e assim pouco a pouco eles conseguiram começar a tarefa antes interrompida. Sim, eles estavam conseguindo superar os velhos conflitos e juntos estavam construindo um novo lar de entendimento e fraternidade. A união que antes já fora dissolvida agora estava sendo construída sob a ótica sublime do amor e isto era realmente algo maravilhoso.

Para selar e concluir a tarefa restava esclarecer apenas mais um fato deveras relevante aos nossos amigos. Eles imaginavam que a união era até que a morte os separasse, pois agora descobriam que ela seria para todo sempre. Quando existe amor, nem a morte separa porque a nossa relação continua do lado de lá.

É assim que devemos encarar as relações afetivas dentro dos nossos lares, famílias compostas na sua grande maioria de seres comprometidos pelo passado remoto e que hoje se reencontram para reconstruírem os seus vasos de porcelana chinesa.

Juntemos pois os cacos e apliquemos o medicamento precioso, que é o AMOR ensinado pelo nosso Mestre amigo, no seu Evangelho de Luz.

Sobre a educação dos sentimentos


Quando se fala em Educação, nossa primeira idéia refere-se a aspectos de ordem cognitiva (ensinar a falar, a escrever, a contar), ou de hábitos (escovar os dentes, tomar banho, ter uma boa postura, cumprimentar as pessoas). Normalmente a educação dos sentimentos aparece em último lugar. Talvez por ser a mais difícil…
Kardec, na pergunta 917 do Livro dos Espíritos, já dizia que “quando se conhecer a arte de manejar os caracteres como se conhece a de manejar as inteligências, poder-se-á endireitá-los.” ¹

Talvez pudéssemos partir desse princípio, buscando analogias que possam nos ajudar a entender melhor a questão dos sentimentos.

Hoje, quando se ensina a criança a escrever, por exemplo, procura-se sempre partir daquilo que ela já traz ou conhece sobre a escrita, mesmo que as hipóteses que ela tenha não se confirmem na prática. A partir do que ela já sabe, ela vai comparando com o novo, transformando aquilo que não dá certo, construindo sua própria escrita.

Também os sentimentos já existem, de alguma forma, nas crianças. Muitas delas apresentam emoções que supomos inferiores. Buscamos aqui a contribuição de Vigotski, teórico soviético que muito contribuiu para a reflexão sobre a educação: “As emoções não podem ser inaceitáveis nem indesejáveis ao pedagogo. Ao contrário, ele deve sempre partir das chamadas sensações inferiores e egoístas como sensações primárias, basilares e fortes e já com base nelas lançar o fundamento da estrutura do indivíduo. (…) a educação dos sentimentos sempre é essencialmente uma reeducação desses sentimentos.” ²

Mudamos para a posição de encarar aquelas emoções indesejáveis como um desafio, buscar encontrar formas de possibilitar que ocorra a transformação dos sentimentos em nossos educandos. Compreender esses sentimentos que a princípio nos parecem totalmente ruins, buscando neles próprios elementos para sua transformação. O egoísmo ferrenho transformando-se no cuidado necessário consigo mesmo e com suas coisas; o orgulho transformando-se em segurança e fé na sua própria capacidade; a insegurança e dúvida na humildade…

São grandes passos para tal transformação, e como ninguém é uma folha em branco, todos têm por onde começar a querer mudar, transformar e aprender a lidar melhor com os próprios sentimentos. Inclusive o próprio educador, consigo próprio!

Transformar pode ser menos traumático do que arrancar um sentimento, sem ter nada para colocar no lugar…

Numa passagem belíssima do livro Boa Nova, Jesus fala à Joana de Cusa: “Por que motivo Deus não impõe a sua verdade e o seu amor aos tiranos da Terra? Por que não fulmina com um raio o conquistador desalmado que espalha a miséria e a destruição, com as forças sinistras da guerra? A sabedoria celeste não extermina as paixões: transforma-as.” ³

Kardec, também no Livro dos Espíritos, comentando a questão 908, explica que “Todas as paixões têm seu princípio num sentimento ou uma necessidade da Natureza. O princípio das paixões não é portanto um mal, pois repousa sobre uma das condições providenciais de nossa existência. A paixão propriamente dita é o exagero de uma necessidade ou de um sentimento; está no excesso e não na causa.” ¹

Portanto, entendendo nossos educandos (filhos, evangelizandos, alunos…), bem como a nós mesmos, como seres em evolução, reconhecendo que estamos todos caminhando, um olhar atento para estas emoções pode representar mais do que um reconhecimento triste de que somos imperfeitos: pode significar um plano de trabalho de reforma interior.

Referências Bibliográficas:
1 - Allan Kardec, O livro dos Espíritos.

2 - Vigotski, L.S. Psicologia Pedagógica, SP: Martins Fontes, 2001, pág. 141

3 - Humberto de Campos, Psicografado por Francisco Cândido Xavier, Boa Nova, RJ: FEB, 1977, pág. 101
Fonte: Verdade e Luz, edição 212 . Setembro de 2003

A Visão Espírita do Pecado


Um dos conceitos mais arraigados na nossa cultura cristã é a idéia do pecado. Desde a mais tenra idade nos ensinam que somos todos pecadores, que tudo de errado que fazemos é pecado e que por isto devemos ser punidos, ou como é mais comum dizermos, castigados.

Fazendo-se uma análise, à luz da razão, desta relação entre pecado e castigo, vamos verificar que este é um processo que apenas gera medo e temor, levando-nos a conter nossos atos, não pela educação, mas pela ameaça do respectivo castigo. Mas será esta a maneira adequada de levar as pessoas à obediência do Evangelho? Será este o meio adequado de implantar o amor entre os homens? Antes de nos concentrarmos na busca de uma alternativa, seria interessante que fôssemos procurar a origem desta visão punitiva.

Quando Moisés retirou seu povo do Egito, os Hebreus estavam completamente influenciados pela cultura egípcia, a idéia de um Deus único era estranha e não havia qualquer disciplina entre eles, era um povo rebelde e acostumado à prática do roubo, do adultério e da adoração a vários deuses. Era ainda um povo primitivo, incapaz de espontaneamente modificar sua conduta. Não existia outra maneira de levá-los a abandonar os velhos hábitos a não ser a adoção da imagem de um Deus punitivo, um Deus que se irava e que castigava implacavelmente aqueles que não obedecessem a “sua Lei”, era o tempo do “olho por olho, dente por dente”.

Quando Jesus veio à terra, seu discurso falava de um Deus tão amoroso que ele o chamava de Pai, sua mensagem não era mais o antigo conceito do Deus vingativo, mas do Deus que perdoava e que nos queria vivendo como irmãos, perdoando e oferecendo a outra face.

Com o advento da Idade Média, a Igreja resgatou o conceito mosaico do pecado, e a idéia de que os pecadores precisavam ser castigados como forma de remir suas faltas, além disso, foi fortalecida a idéia da ação do demônio na vida dos homens e de que se não “pagássemos” pelas nossas faltas estaríamos irremediavelmente condenados ao fogo do inferno. Essa concepção foi transmitida através das gerações e chegou até os nossos dias, onde continuamos temendo os castigos de Deus.

O Espiritismo, através de uma visão amadurecida, observa sob uma nova ótica a questão do pecado, lançando a luz do entendimento sobre o assunto e trazendo conforto e esperança aos homens, que doravante apagam a noção de pecadores e passam a assumir o papel de seres em evolução, ainda imperfeitos é verdade, mas rumando inexoravelmente para uma condição superior onde não mais cometerão os erros atuais. Alguns podem julgar esta posição absurda, mas então vamos parar um minuto e perguntar a nós mesmos: Quantos de nós, que somos humanos, ao invés de darmos nova oportunidade a nossos filhos, quando estes fazem algo que julgamos errado, os expulsamos de casa e os condenamos a viver eternamente com sua culpa? Então por que Deus que é o infinito amor agiria de uma forma pior do que a nossa? Afinal não foi Jesus quem disse: “Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus” (Mateus 7:11).

Apaguemos de nossas mentes a idéia da culpa. Na Doutrina Espírita nós não somos culpados; somos responsáveis pelos nossos atos e devemos responder pelas nossas ações, não através do famigerado castigo, mas através de mecanismos que nos levam à conscientização de nossas atitudes equivocadas e da reparação dos mesmos, pois o equívoco faz parte do processo de aprendizado e como seres em evolução precisamos vivenciar as mais diversas experiências para alcançar o progresso espiritual, e nessa jornada de luz é natural que nos enganemos, mas, é imprescindível que nos esforcemos para crescer. O objetivo da lei divina não é punir, mas, educar, fazendo com que cada indivíduo evite repetir seus erros pela compreensão de que sua atitude passada foi inadequada e que é necessário uma mudança de conduta.

As fases deste processo de mudança são: o Arrependimento, momento em que reconhecemos a nossa falha de conduta, a Expiação, que é quando vamos refletir sobre o que fizemos e finalmente a Reparação, que é o ápice deste processo, pois é quando alteramos nossos passos ou corrigimos o ato falho. Observem a lógica desta proposta, nela todos saem enriquecidos; nós, pelo amadurecimento, e o outro (a quem porventura prejudicamos), por ser valorizado ao consertarmos os nossos enganos.

A vida é uma dádiva de Deus, que no-la concedeu, para que alcancemos a felicidade, e não para vivermos com medo, vamos todos então trabalhar para alcançarmos a comunhão com Ele, certos de que: “Todo homem podendo corrigir as suas imperfeições pela sua própria vontade, pode poupar-se os males que delas decorrem e assegurar a sua felicidade futura” (o Céu e o Inferno, Cap VII).

Fontes:
O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec
O Céu e o Inferno – Allan Kardec
O Livro dos Espíritos – Allan Kardec
O Perdão e o Autoperdão – Divaldo Franco
Roteiro I do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita
A Bíblia Sagrada

HIPERTENSÃO E ESPIRITUALIDADE


A doutrina espírita afirma que a causa das nossas doenças está no espírito e as lesões do corpo físico são projeções doentias do pensamento e dos sentimentos, mais especificamente do ego, da personalidade ou máscara.
"No caso da hipertensão arterial, do ponto de vista da Medicina puramente materialista, suas causas podem ser renais, glandulares e cardio-circulatórias, porém, a mais comum é de origem desconhecida, a chamada hipertensão essencial. Mas, no paradigma espírita, a causa está no espírito", declara Júpiter Villoz Silveira, médico endocrinologista e vice-presidente da Associação Médico-Espírita (AME) de Londrina-PR, que tratou do tema no IV Congresso Nacional da Associação Médico-Espírita (Medianesp 2003).

Júpiter lembra que o neurologista Antonio Carlos Costardi, de Taubaté(SP), autor de vários livros sobre a mente, entre eles Um condomínio chamado família, faz essa afirmação há anos.

"Costardi nos diz que a hipertensão arterial sistêmica ocorre em pacientes com a personalidade controladora, que ao perderem o controle de uma determinada situação, geram um sentimento de raiva que descarregado sobre o seu próprio corpo somático, produz, entre outras coisas, a hipertensão arterial", afirma.

Para provar a tese de que todas as pessoas hipertensas têm personalidade controladora e traçar um perfil psicoespiritual do hipertenso, Júpiter convidou, naquela ocasião, aleatoriamente, pacientes hipertensos, tanto de seu consultório, como da instituição Casa do Caminho, de Londrina, que estivessem dispostos a participar do trabalho de investigação.

As pessoas escolhidas foram de ambos os sexos, de 20 a 50 anos. Posteriormente, elas foram encaminhadas ao Instituto Reviver, clínica do médico Cláudio Sproesser, que trabalha com as doutoras Eliane Alves de Andrade e Marilene Moreli Pedoa, onde passaram por testes em que foi avaliada a história detalhada de suas doenças de promovidos testes psicológicos.

"Após anamnese detalhada e explicação de testes como o Warteg, eles encontraram os seguintes resultados: intolerância, pessoas dominadoras e baixa auto-estima", relata(a anamnese é a informação sobre o princípio e evolução de uma doença até a primeira observação do médico, e os testes de Warteg são avaliações psicológicas do paciente). "Entre a população avaliada, a intolerância e o comportamento dominador obtiveram um perfil de 100%. Já em relação à baixa auto-estima, o índice constatado foi de 90% e o nível de estresse dessa população está numa escala altíssima", completa Júpiter.

De acordo com Júpiter, aqueles que representam faixa etária acima de 40 anos e/ou aqueles que fumam, independentemente da idade, segundo a literatura médica, já estão na probabilidade da ocorrência de apresentarem ou já estarem apresentando alterações cardio-vasculares. "Mas, podemos afirmar que, independentemente do grau de cultura, a conscientização quanto à espiritualidade é fator preponderante no equilíbrio da qualidade de vida do paciente", diz.

Júpiter Silveira também aponta que, através dos protocolos avaliados, é possível identificar características quanto ao "eu" do indivíduo na sua afetividade, a sua ambição, sexualidade e proteção.

"Pode-se notar algumas características comuns entre essas pessoas, como insegurança, busca de proteção, negação da sua individualidade, repressão da angústia, objetivos indefinidos e dificuldades quanto a sua sexualidade. Cabe ressaltar que também foram constatadas outras características distintas, sendo algumas positivas", lembra.

Centro Coronário
Segundo André Luiz, no livro Evolução em Dois Mundos, temos particularmente no centro coronário o ponto de interação entre as forças determinantes do espírito e as forças fisiopsicossamáticas organizadas. Dele, parte, desse modo, a corrente de energia vitalizante formada de estímulos espirituais com ação difusível sobre a matéria mental que o envolve, transmitindo aos demais centros da alma os reflexos vivos de nossos sentimentos, idéias e ações, tanto quanto esses mesmos centros, independentemente entre si, imprimem semelhantes reflexos nos órgãos e demais implementos de nossa constituição particular, plasmando em nós próprios os efeitos agradáveis ou desagradáveis de nossa influência e conduta.

"A mente elabora as criações que lhe fluem da vontade, apropriando-se dos elementos que a circundam, e o centro coronário incumbe-se , automaticamente, de fixar a natureza da responsabilidade que lhe diga respeito, marcando no próprio ser as conseqüências felizes e infelizes de sua motivação consciêncial no campo do destino", finaliza Júpiter.

Na obra de André Luiz fica muito claro que o espírito é o responsável, através de seus sentimentos em desequilíbrio, pelas lesões perispiríticas que se traduzem como doenças no corpo físico.

Fonte: Associação Médico-Espírita do Brasil
Revista: Caminho Espiritual - nº 01 - outubro

O restaurador de quadros

Em uma cidadezinha, havia uma pequena oficina de restauração de quadros. Nela havia todos os tipos de quadros para serem consertados.

Quadros com vidros quebrados, molduras arranhadas, telas com pinturas manchadas. O restaurador trabalhava noite e dia consertando os quadros que apresentavam os mais variados problemas.

Depois colocava-os na sala de exposição e as pessoas que passavam por ali, viam, compravam e levavam para casa. No meio daquele amontoado de quadros encontrava-se um pequeno quadro, todo estragado, todo empoeirado. Sua moldura estava toda rachada com a pintura arranhada. Seu vidro estava trincado, sua tela toda manchada e quase rota.

O pequeno quadro sempre estava olhando para o restaurador, na esperança de que ELE o pegasse e o consertasse. O tempo passava, mas nada do restaurador pegá-lo para consertar. O pequeno quadro pensava consigo mesmo: - O meu destino é ir para o lixo!... O restaurador sequer olha para mim... Talvez eu não tenha mesmo mais conserto.

Há tantos outros quadros menos deteriorados do que eu e que depois de arrumados terão um valor maior para a venda... E, assim, foi passando o tempo. O pequeno quadro cada vez mais desanimado com seu destino.

Numa manhã o Restaurador pegou-o, olhou demoradamente para ele, fez um longo silêncio, e perguntou: - O que são essas rachaduras e ranhuras na sua moldura? Desculpe-me, Senhor, mas quando o Senhor me fez, também fizestes outros quadros que ficaram comigo.

Alguns deles eram maiores, muito orgulhosos e prepotentes. Eu tentei conviver com eles, mas eram fortes, derrubaram-me, arranharam e racharam a minha moldura.

- Por que seu vidro está todo trincado? - Ah, Senhor, na ânsia de me safar com minhas próprias forças das adversidades eu caí e ele quebrou.

 - Por que sua pintura está toda manchada? - Ah, Senhor, foram as lágrimas que derramei nas horas de sufoco e desolação.

- Por que sua tela está rota? - Ah, Senhor, esta foi a pior parte que aconteceu comigo durante a minha vida. Neste lugar, estava um coração cheio de amor, esperança, entusiasmo, alegria. Um certo dia ele foi esmagado pela desilusão, incerteza, ingratidão, desamor. Acho que não tenho mais recuperação. O meu destino é inevitavelmente o LIXO.

O Restaurador olhou profundamente para aquele pequeno quadro e disse: - Eu o criei conforme a minha vontade e eu o restaurarei conforme a minha vontade! O Restaurador passou dias e dias no seu trabalho de restauração do pequeno quadro. Quando terminou disse: - Pronto. Você está novinho em folha.

Agora você irá para o lugar de honra da sala de exposições. Lugar que sempre foi seu, desde que eu o criei. O pequeno quadro quase não acreditou. Que maravilha o restaurador tinha feito com ele.

A moldura estava tão brilhante, mais bonita que a anterior. Seu vidro tinha sido trocado. A pintura de sua tela estava com as cores vivas. Procurou pelo lugar que estava roto e não encontrou mais. Estava com a sua tela em perfeito estado. As pessoas que visitavam a exposição ficaram maravilhadas com aquele pequeno quadro. Comentavam entre si: - Que beleza de quadro! Pequeno, é verdade, mas a sua pintura tem uma luz suave e penetrante, nele reside uma beleza inexplicável. É uma verdadeira "Obra prima". Um deles perguntou:

- Quem teria sido o autor de tal obra? E uma voz ecoou bem clara:
- DEUS!

Você é esse quadro! Pense nisso!

Um Espirito no enterro de seu corpo


Os Espíritos sempre nos disseram que a separação da alma e do corpo não se faz instantaneamente; ela começa, algumas vezes, antes da morte real, durante a agonia, quando a última pulsação se faz sentir, o desligamento não está ainda completo; ele se opera mais ou menos lentamente segundo as circunstâncias, e até a sua inteira liberdade a alma experimenta uma perturbação, uma confusão que não lhe permite conscientizar-se de sua situação; está no estado de uma pessoa que desperta e cujas idéias são confusas.

 Esse estado nada tem de penoso para o homem cuja consciência é pura; sem muito se explicar do que vê, é calmo e espera sem medo o despertar completo; ao contrário, é cheio de angústias e de terror para aquele que teme o futuro. A duração dessa perturbação, dizemos nós, é variável; é muito menos longa naquele que, durante a vida, já elevou seus pensamentos e purificou sua alma; dois ou três dias lhe bastam, ao passo que, em outros, é preciso, algumas vezes, oito ou mais.

Freqüentemente, assistimos a esse momento solene, e sempre vimos a mesma coisa; isso não é, pois, uma teoria, mas um resultado da observação, uma vez que é o Espírito quem fala e quem pinta sua própria situação. Eis aqui um exemplo mais característico e tanto mais interessante para o observador, que não se trata mais de um Espírito invisível escrevendo por um médium, mas bem de um Espírito visto e ouvido na presença de seu corpo, seja na câmara mortuária, seja na igreja durante o serviço fúnebre.

O senhor X... vinha de ser atingido por um ataque de apoplexia; algumas horas depois de sua morte, o senhor Adrien, um de seus amigos, se encontrava em seu quarto com a mulher do defunto; ele viu distintamente o Espírito deste passear em todos os sentidos, olhar alternativamente seu corpo e as pessoas presentes, depois sentar-se numa poltrona; tinha exatamente a mesma aparência de quando vivo; estava vestido do mesmo modo, sobre-casaca preta, calça preta; tinha as mãos nos bolsos e o ar preocupado.

Durante esse tempo, a mulher procurava um papel na escrivaninha, seu marido a olha e diz: Procuras inutilmente, não encontrarás nada. Ela não desconfiava nada do que se passava, porque o senhor X... não era visível senão para o senhor Adrien.

No dia seguinte, durante o serviço fúnebre, o senhor Adrien viu de novo o Espírito de seu amigo perambular ao lado do caixão, mas não tinha mais o vestuário da véspera; estava envolvido com uma espécie de roupagem. A conversação seguinte se iniciou entre eles. Notemos, de passagem, que o senhor Adrien não é sonâmbulo; que nesse momento, como no dia precedente, estava perfeitamente desperto, e que o Espírito lhe aparecia como se fosse um dos assistentes do enterro.

P. Diga um pouco, caro Espírito, que sentes agora? - R. Do bem e do sofrimento. - P. Não compreendo isso. - R. Sinto que estou vivo, com minha verdadeira vida e, entretanto, sinto que vivo, que existo: sou, pois, dois seres? Ah! deixai-me sair desta noite, tenho pesadelo.

P. Permanecerás por muito tempo assim? - R. Oh! não; graças a Deus, meu amigo; sinto que despertarei logo: seria horrível de outro modo; tenho as idéias confusas; tudo é neblina: sonho na grande divisão que acaba de ser feita... não compreendo ainda nada.

P. Que efeito vos fez a morte? - R. A morte! eu não estou morto, meu filho, tu te enganas. Eu me levantei e fui atingido de repente, por um nevoeiro que me desceu sobre os olhos, depois despertei, e julguei meu espanto ao me ver, me sentir vivo, e de ver ao lado, sobre a lage, meu outro eu deitado. Minhas idéias eram confusas; enganei-me para me tranqüilizar, mas não pude; vi minha mulher chegar, velar-me, lamentar-se, e me perguntava por quê? Consolei-a, falei-lhe, e ela não me respondia e nem me compreendia; aí está o que me torturava e tornava meu Espírito mais perturbado. Só tu me fizeste bem, porque me ouviste e compreendes o que quero; ajudas-me a desembaraçar minhas idéias e me fazes grande bem; mas, por que os outros não fazem o mesmo? Eis o que me tortura... O cérebro está esmagado diante dessa dor... Vou vê-la, talvez me ouça agora... Até logo, caro amigo; chama-me e irei ver-te... Far-te-ei mesmo visita de amigo... Eu te surpreenderei... até logo. O senhor Adrien viu-o, em seguida, ir junto de seu filho que chorava... Inclinou-se para ele, ficou um momento nessa situação e partiu rapidamente. Não fora ouvido, e, sem dúvida, se figurou produzir um som; eu, eu estou persuadido, acrescenta o senhor Adrien, que o que dizia chegava ao coração da criança; eu vos provarei isso. Revi-o depois, ele está mais calmo.


Nota. -Esta narração está de acordo com tudo o que já havíamos observado sobre o fenômeno da separação da alma; ela confirma, com circunstâncias todas especiais, essa verdade, que depois da morte o Espírito ainda está ali presente. Acredita-se não ter, diante de si, senão um corpo inerte, ao passo que ele vê e ouve tudo o que se passa ao redor dele, que penetra o pensamento dos assistentes, que não há, entre eles e ele, senão a diferença da visibilidade e da invisibilidade; os prantos hipócritas de ávidos herdeiros não podem lhe impor. Quantas decepções os Espíritos devem experimentar neste momento!

Espirito desconhecido
Revista Espirita, dezembro de 1958

A misteriosa menina. (História)


Um vendedor de bijuterias tentava negociar alguns de seus produtos desde manhã e nada conseguia. Em sua fadiga pensou na esposa e nos três filhinhos que o esperavam em casa."Meu Deus! – monologou – o que fazer para conseguir dinheiro suficiente para sustentar minha família? Não Vos peço muito: só o necessário para hoje".

Todavia, as horas foram passando e nada acontecia para lhe melhorar a sorte. "Por quê, Senhor, permitiste isto? Por acaso não sou vosso filho?" O sol já começava a declinar-se no horizonte quando ele desmontou sua barraca e pôs-se a caminho de casa, sem saber como chegar de mãos vazias.

Morava de favores numa chácara, ali perto. Foi caminhando vagarosamente a fim de retardar a tortura que sentiria ao defrontar-se com a família, talvez esperançosa com a sua chegada. "Já que até Deus se esqueceu de mim, – pensou – resta-me apenas uma saída". Retirou das costas a grande mochila, onde estavam os produtos para a venda, e a barraca desmontada.

Apanhou a corda que servia de amarras, entrou no matagal, e junto a um riacho escolheu uma árvore, jogou uma das extremidades da corda sobre um galho, amarrando-a fortemente, e pôs-se a fazer o laço fatídico.

Nisso, aparece-lhe uma graciosa menina, de cabelos cacheados, olhar penetrante, a esboçar um sorriso. –

Ei, moço – perguntou suavemente – empresta-me essa corda? – Emprestar-lhe a corda? Para quê? – Quero fazer um balanço para brincar, nem que seja por um pouquinho só.

 E apontando para o chão, observou: – O senhor deixou cair a carteira. – Que carteira?! – assustou-se – Não tenho nenhuma carteira. – Olha ela aí perto do seu pé. – Baixando os olhos ficou estupefato. Ali estava uma carteira recheada de dinheiro. Apanhou-a rapidamente e nela procurou algum documento que indicasse o nome e o endereço de quem a perdera, pois honesto como era, jamais se apossaria de algo que não lhe pertencesse. Contudo, não encontrou um só documento.

Nela estava um maço de notas, suficiente para sustentar a família por alguns meses. Feliz e arrependido ao mesmo tempo, por ter duvidado de Deus e por ter pensado em por fim à própria vida, ajoelhou-se e pediu perdão pela sua falta de fé.

Terminada a prece, retirou a corda para dá-la de presente a menina, mas quando a procurou, ela já não estava mais ali. Chegou em sua casa feliz, mas também interrogativo: "Quem era aquela menina? Como poderia alguém ter perdido uma carteira naquele lugar tão ermo?"

 Contou tudo à esposa, com detalhes. A mulher, mais esclarecida que ele sobre as coisas de Deus, pôs-se a falar: – Meu querido, não percebe que a menina era um Anjo enviado por Deus, a fim de suprir nossas necessidades? – Mas... E a carteira? Deus não a jogaria do Céu. – Claro que não. Mas pode ter feito alguém, à quem esse dinheiro não faria falta, ter ido até aquele lugar, onde a deixou cair, para você a encontrar. – É... Faz sentido. – Muitas vezes, meu marido, não entendemos os propósitos de Deus.

Ele não atendeu o seu pedido na hora, a fim de provar a sua fé. Mas depois nos socorreu, pois jamais deixa seus filhos perecerem e não os abandona momento algum. – É... Mas eu falhei em minha fé. – Mesmo assim, Ele entendeu e perdoou a sua fraqueza.

Por isso, diante das maiores dificuldades nunca podemos duvidar Daquele que nos criou e nos colocou aqui na Terra. Essas dificuldades que estamos passando, têm sua razão de ser, embora não saibamos qual é. O sofrimento nos torna mais fortes e resgata nossas dívidas diante de Deus. Por outro lado... Foi interrompida por alguém que batia à porta. Atenderam cismados. Um homem bem vestido, após cumprimentá-los, perguntou: – Por acaso algum de vocês achou uma carteira por aí? Estava no mato à procura do meu cachorrinho de estimação e, quando voltei para casa, dei pela falta da carteira. Como eu sei que o senhor costuma passar por lá, vim perguntar. Marido e mulher se entreolharam, deixando transparecer certa decepção. – Sim – disse-lhe o vendedor – aqui está ela.

O desconhecido olhou a miséria no ambiente, observou as crianças esquálidas e pediu: – A senhora pode me servir um cafezinho? – Sinto muito, senhor. Não temos nada em casa, nem mesmo para fazer um café. O rosto do homem contraiu-se de pena. Abriu a carteira, deu-lhe um pacote de notas e dirigindo-se ao dono da casa, foi taxativo, fazendo referência à difícil situação em que se encontravam. – Venha ao mercado comigo para comprarmos o que vocês precisam. Tome este cartão e me procure amanhã. Pela sua honestidade, tão rara nos dias de hoje, convido-o a trabalhar na minha empresa e a senhora. Aí o casal compreendeu como Deus é perfeito em tudo o que faz. Só o mistério do aparecimento da menina não conseguiram desvendar, mas continuaram acreditando que fosse um anjo.

Jorge Felipe Sá de Freitas