12 de out. de 2016

Preconceito.


Este tema foi abordado também em uma de minhas últimas palestras, porque se faz necessária a consideração reiterada do assunto, em razão dos disparates verificados nos acontecimentos atuais. 

São desdobramentos inquestionáveis do prejuízo sério enraizado na falta da tomada definitiva de consciência para com as realidades espirituais maiores, que nos aguardam a todos, a qualquer tempo.

 E uma das consequências mais lastimáveis deste quadro se verifica na tendência, ainda comum em muitos, de se posicionarem como se de fato, antes, e depois desta vida corpórea, nada mais houvesse, nada mais repercutisse.

 Como se a continuidade da nossa existência, ao longo das jornadas materiais evolutivas, não existisse, sem obedecer a um fio contínuo de efeitos, enraizados em causas que repousam, sobretudo, nas escolhas individuais, das menores às maiores!

Reencarnação, efetivamente, trata-se de fato natural, caro leitor e leitora. De lei universal, cuja dinâmica atinge cada ser em curso pela Terra, do mesmo modo como nos afeta cada nascer e cada pôr do sol. E, disso, cada qual obterá a devida constatação, mais uma, e ainda noutra vez, ao término das estadias transitórias num corpo material - à revelia de crenças, descrenças, e de ignorância voluntária, ou não, do assunto.

Costumamos dizer que de nada adianta alguém destituído do sentido da visão se pôr a negar a existência da luz do sol somente porque, temporariamente, sob os efeitos da provação de uma de suas muitas existências num corpo de carne, não consegue ver a luz; constatar-lhe a existência para além dos efeitos do calor de sua poderosa irradiação no mundo. De fato, o sol continuará lá, soberano nos céus, à espera de que aquele Espírito em trânsito pela Terra enfim resgate devidamente o dom da visão, no seu corpo de carne, ou após sua passagem para o mundo maior, quando, enfim, tornará a percebê-lo! Mas o sol não deixará de existir em função da incapacidade momentânea deste ou daquele para ver o brilho magnífico que espraia diariamente sobre todos os seres da Criação, instilando-lhes saúde e vigor.

Quantas “encadernações” novas tivemos?

Compreendido com clareza este ponto, a realidade das vidas sucessivas, conhecida de há vários milênios pelas mais diversificadas culturas e povos espalhados pelo planeta ao longo da história humana, passemos à consideração seguinte: durante nossas incontáveis vidas corpóreas sucessivas, quantos idiomas já articulamos? Quantos climas experimentamos? De quantos quadros culturais já partilhamos dos hábitos, crenças e humores?

Quantas cores de pele já vestimos? Quantas “encadernações” novas tivemos, para aproveitar a definição inspirada quanto divertida de uma amiga querida do meio profissional, em se referindo à reencarnação?

Efetivamente, na esteira de nossas vivências milenares, bastante provável é que já tenhamos exteriorizado múltiplas vezes nossas personalidades transitórias sob os tons de pele dos asiáticos, dos africanos ou dos holandeses. Poderemos contar como certo já termos nos empolgado, aborrecido, digladiado, emocionado ou nos alegrado debaixo das nuances de compreensão da vida de um sem-número de povos que percebem a própria existência, e, portanto, também Deus, com suas inumeráveis leituras religiosas, e de dentro de uma diversificação de entendimento de tal modo vasta quanto intrincada, conflitante, se confrontada com pareceres de outros extremos do mundo!

A riqueza magnífica da vida, da existência, neste orbe, quanto no universo infinito, e nas várias dimensões invisíveis às limitações rudes dos sentidos físicos, é fato! O que, por conseguinte, torna esta mesma vida tão mágica, respeitável, digna da mais profunda veneração, pela capacidade do Criador de se expandir infinitamente numa miríade de seres e de nuances que jamais se repetem em suas cores, e nas suas idiossincrasias!

E, no entanto, persiste ainda a raça humana, neste pequeno ponto azul perdido na imensidão do cosmos, na mesma e renitente ilusão dolorosa do ego cego, embora não mais do que transitório; no vício pernicioso de julgar e confinar tudo e todos no ínfimo modelo de sua escolha! Na garrafa mais ao seu gosto, em termos de formato, cor, e de detalhes superficiais!

O que é estético, superficialmente aceitável?

Preconceito é conceito prévio! Conceito precipitado, via de regra distanciado da autenticidade da realidade confrontada - por ser parcial, e se basear em um punhado de opiniões e ideias com que nos identificamos, diante de qualquer situação de diversidade daquilo que entendemos como nosso modelo, como o tido como “normal”, como o “comum”! E a razão é que este “comum” é confortável ao nosso ego. E toda a diferença, se mal compreendida, amedronta, provoca receios, porque nos lança em conflitos com nossas próprias definições, com as quais nos identificamos existencialmente, e das quais, por esta mesma razão, não podemos nem queremos nos desfazer sem perder a noção de nós mesmos, do nosso “chão”!

Mas isso reside no erro básico de se identificar com conceitos – distanciados de quem realmente somos –, que nada têm a ver com as ideias e pensamentos transitórios a que fomos condicionados ao longo da vida a respeito de nós mesmos!

Ponderemos, amigo leitor e leitora! Porque outra não é a razão dos dolorosos dramas observados atualmente, nos casos noticiados de discriminação racial e sexual, de opressão entre classes sociais; nos episódios lastimáveis relatados diariamente, havidos entre nossos jovens e crianças vitimadas pelo hoje chamado bullying – fundamentado justo nesta incapacidade brutal de se lidar, com respeito, quando não com admiração e afeto, com a diversidadeincessante presente na dinâmica da vida!

De outra forma, considere-se – o que é estético, superficialmente aceitável? Se já reencarnamos japoneses, ingleses, brasileiros ou africanos, vivendo milhares de estados de espírito correspondentes a cada uma dessas épocas e nacionalidades; dividindo com afetos e desafetos que nos acompanharam experiências, alegrias, preocupações, doenças, sofrimentos, e tendo como referência outros lugares, hábitos, valores – como, então, confinar dentro de cláusula pétrea o que é, em definitivo, estético, bom, atraente, “normal”? Como nutrir a pretensão a um padrão universal que, absurdamente, se pretenda impor a outros milhões de seres em trânsito no mundo?!

O que se lucra em maltratar negros, índios ou latinos?

Num país, prevalece a religião budista, a cor de pele bronzeada, ou a branca; determinada política, parlamentarista, imperialista ou democrática. Esse ou aquele idioma. Normas sociais, as mais díspares. Esta ou aquela visão da divindade – caminhos diferentes para um Deus só! Ou alguém, nalgum lugar, acha tal ou qual pessoa belíssima - pessoa essa cuja aplaudida “estética”, diante de outras percepções, não ultrapassa o lugar comum... Uns, ainda, apreciam certos paladares. Outros, tantos mais.

Ora, é de se perguntar aonde leva abrir guerra declarada contra quem não é branco ou não articula o idioma inglês, contra toda e qualquer diferença? O que se lucra em oprimir e maltratar indivíduos negros, ou índios e latinos; que fazem opção sexual conflitante com o que se convencionou considerar a normalidade neste sentido?

Qual o ganho, obtido em termos de felicidade individual ou grupal, ao se agredir física ou moralmente os seguidores do candomblé, da igreja evangélica ou protestante? Católicos ou espíritas? O que, em casos assim, nos diferencia dos malfeitores comuns, que conduzem suas vidas no engano grave da prática da violência contra a vida, contra o próximo?

No que, caros leitores, afinal, a leitura de vida diferenciada de uns nos afeta prejudicialmente, de fato? Pergunta que se deve fazer a todo instante, a cada impulso de julgamento ou de crítica irrefletida!

Por que não podemos conviver harmoniosamente com as diferenças múltiplas presentes na humanidade, e no contexto existencial global, se, sob uma análise fria, nada disso prejudica quem quer que seja – antes, beneficia a todos com a ausência da mesmice, com a troca saudável do debate e do crescimento por meio do aprendizado mútuo obtido pelo entrelaçamento entre vivências diferentes?

O orgulhoso senador Públio Lentulus voltou como um escravo

Um mestre espiritual indiano, há tempos, ponderava a respeito, ilustrando sobre a inutilidade que haveria se um pé de carvalho se empenhasse a debater com um pinheiro acerca de se achar superior ao outro, por esta ou aquela razão. Haveria sentido? Com cada exemplar da flora e da fauna terrestre desempenhando dignamente sua função na cadeia vital, que caos destrutivo ocorreria no mundo natural se também estes reinos se pusessem a querer provar uns aos outros a sua superioridade, destruindo, atacando, lançando-se contra o outro como gangrena incontrolável?

Duas obras de Chico Xavier, de autoria de Emmanuel, - Há Dois Mil Anos, eCinquenta Anos Depois, - romances históricos entrelaçados em conteúdo, de há muito nos ensinavam o impasse evolutivo a que se chega, quando essa postura atinge os extremos da opressão e da prática da intolerância contra o semelhante. Narra a história de Públio Lentulus, nobre senador romano, orgulhoso e déspota na conduta com seus subordinados, que retorna em reencarnação posterior como o simples escravo Nestório, no mesmo ambiente de contrastes sociais difíceis, onde sua invigilância espiritual contribuiu para arraigar os prejuízos desencadeados pelo mesmo padrão desvirtuado de compreensão do mundo. Padrão este que ainda assola os povos terrenos, de mais de dois milênios passados!

Em inúmeros casos, no entanto, trata-se da mesma humanidade reencarnada, enfrentando, ainda, o lento aprendizado de como coexistir com o próximo de dentro das necessidades inadiáveis do respeito e da harmonização entre as diferenças, se o que se quer, de fato, é o avanço das sociedades para cenários mais pacíficos, com autêntica qualidade de vida, porque residente em valores realistas que arrancam o homem da sua ilusão de identificação com seus “rótulos” de poder.

Nosso verdadeiro ser não é feito de coisas transitórias...

Em última análise, em se atingindo este patamar de melhoria íntima, compreenderemos, enfim, que não somos esses rótulos, convenientes à satisfação transitória do ego, no seu poço sem fundo de desejos que nunca satisfazem o vazio preenchido somente pelo entendimento claro do que concerne ao nosso verdadeiro ser! E este ser não é a transitoriedade inexorável de cada cor de pele, que vestimos a cada vida; a nacionalidade, o idioma, a orientação sexual momentânea, ou o conceito religioso mais afim a cada estágio de condicionamento experimentado nas vidas corpóreas, em função de climas culturais ou ideológicos!

Não somos, amigos leitores, a altura ou o peso corporal; a estética da moda, ou o que se considera a sua antítese, pelos padrões midiáticos consumistas. Menos ainda, o jargão das línguas e da escrita, o consumo utilitário deste ou daquele produto, ou marca de grife! Não somos também nossa conta bancária passageira, nossa classe social atual, e nem mesmo nossos nomes de família ou opiniões!

Tudo isso, em absoluto, passará – no mais das vezes, em não tanto tempo assim! E observem com isenção, para constatar, sem muita dificuldade, que há um distanciamento sutil entre o seu “ser” real, verdadeiramente inalterável, de todo este redemoinho de circunstâncias fadadas a um término natural, a longo ou curto prazo!

Há um observador! Há um estado de atenção, de consciência pura, isenta – esta sim, destinada à perpetuação, à eternidade! Um estado de ser que sabe existir de dentro dos preceitos do amor incondicional pela vida presente em toda a Criação, e por suas incontáveis manifestações – amor outrora ensinado e idealizado pelo Cristo, por Buda, e por tantos outros iluminados, em trânsito de tempos em tempos pela Terra, para exemplificar a rota segura para uma dimensão de Luz cujo alcance definitivo depende apenas de nossas escolhas por um modo de ser não mais do que simples; não mais do que pautado por respeito, compaixão e veneração pelo aspecto sagrado da Vida, existente em nós, como em todos e em tudo o que nos rodeia!

CHRISTINA NUNES

10 de out. de 2016

Microcefalia, aborto e percepções espirituais da população.


Simplesmente por falta de políticas públicas mais efetivas, parte considerável da população está exposta à ação do mosquito Aedes aegypt, agente transmissor de doenças como dengue, febre amarela, chikungunya e do vírus da zika.

 Este último, segundo os especialistas, está associado à terrível manifestação da microcefalia, que, entre outras coisas, causa diminuição da caixa craniana e destruição do sistema nervoso central – conforme atestam recentíssimos experimentos realizados em solo brasileiro – dos fetos, comprometendo irremediavelmente as suas vidas. No momento em que escrevo essas linhas já foram confirmados 508 casos no país. Por motivos óbvios, esse quadro também representa um pesadelo para as gestantes. Mulheres grávidas ou que almejam tal condição pertencente a extratos sociais mais elevados estão deixando ou pelo menos considerando a possibilidade de deixar o país durante o período de suas gestações.

Reportagens jornalísticas têm abordado algumas faces cruéis atribuídas à microcefalia, ou seja, o abandono. Muitos pais ao saberem que têm um filho portador dessa doença deixam as suas companheiras. Essas, por sua vez, premidas por enormes dificuldades econômico-financeiras – às vezes são mães de outras crianças igualmente doentes exigindo cuidados especiais – deixam o filho problemático à adoção. O estado de Pernambuco tem concentrado a maioria dos casos de microcefalia do Nordeste. Segundo levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Social, Criança e Juventude, 77% das 209 mães de bebês com a má-formação estão abaixo da linha extrema de pobreza – o que torna a situação mais emblemática.

No bojo desse caos, o instituto de pesquisas Datafolha fez um levantamento altamente revelador a respeito de como a população encara a possibilidade de aborto de um feto microcéfalo. Mais especificamente, 56% das pessoas com apenas o ensino fundamental e 53% das que possuem nível médio rejeitam veementemente a ideia do aborto. Em contraste, 53% das que possuem nível superior aceitam tal procedimento nessas circunstâncias contra 38% que pensam o contrário.

Avançando um pouco mais na análise, as pessoas mais pobres também rejeitam o aborto, isto é, 57% das que ganham até 2 salários mínimos (SM) e 48% das que recebem até 5 SM contra 43%. No entanto, 56% das que auferem entre 5/10 SM (em oposição a 38%) e 60% das que obtêm 10 SM ou mais aceitam a abominável alternativa em tais casos contra 34% que a rejeitam. Tais resultados levam a algumas conclusões extremamente preocupantes. Em poucas palavras, pessoas com mais renda e escolaridade tendem a aceitar o aborto de bebês microcéfalos.

Dito de outra forma, pessoas em flagrante processo de ascensão social e/ou que desfrutem de melhores condições econômicas e instrução tendem a rechaçar a possibilidade de conceber filhos limitados fisicamente. Em seus planos de vida aparentemente não há espaço para responsabilidades dessa ordem. As restrições daí decorrentes se chocam frontalmente com os seus ideais e projetos pessoais. Por possuírem mais recursos financeiros, o aborto lhes soa como algo naturalmente aceitável em tais circunstâncias. Enquanto isso, as pessoas mais pobres tendem a se conformar diante de tal probabilidade, apesar dos seus parcos meios de subsistência.

O Espiritismo tem posição firme contra o emprego do aborto. Por exemplo, na questão nº 358 de O Livro dos Espíritos encontramos esclarecedores subsídios da espiritualidade maior a respeito do tema – ou seja: “Constitui crime a provocação do aborto, em qualquer período da gestação? – Há crime sempre que transgredis a lei de Deus. Uma mãe, ou quem quer que seja, cometerá crime sempre que tirar a vida a uma criança antes do seu nascimento, pois que impede uma alma de passar pelas provas a que serviria de instrumento o corpo que se estava formando”.

Vê-se, assim, que uma decisão que abrigue esse tipo de pensamento incorre, por conseguinte, em crime na percepção dos Espíritos. Sob essa perspectiva, o ser reencarnante se vê desprovido do essencial equipamento material para o seu reajuste perante as leis de Deus (ver questão nº 357 da mesma obra). Os seus pais materiais, por outro lado, ao assim proceder, negligenciam compromissos previamente acertados no Além, o que certamente muito lhes prejudicará no caminho ascensional do Espírito.

Na obra Ação e Reação ditada pelo Espírito André Luiz (psicografia de Francisco Cândido Xavier) encontramos igualmente outras importantes elucidações, a saber:

“Falta grave?! Será melhor dizer doloroso crime. Arrancar uma criança ao materno seio é infanticídio confesso. A mulher que o promove ou que venha a coonestar semelhante delito é constrangida, por leis irrevogáveis, a sofrer alterações deprimentes no centro genésico de sua alma, predispondo-se geralmente a dolorosas enfermidades, quais sejam a metrite, o vaginismo, a metralgia, o enfarte uterino, a tumoração cancerosa, flagelos esses com os quais, muita vez, desencarna, demandando o Além para responder, perante a Justiça Divina, pelo crime praticado. É, então, que se reconhece rediviva, mas doente e infeliz, porque, pela incessante recapitulação mental do ato abominável, através do remorso, reterá por tempo longo a degenerescência das forças genitais”.

Os Espíritos são muito claros e objetivos quanto ao, digamos, aceitável emprego do aborto, isto é, as situações em que esse procedimento é visto com atenuantes pelas normas divinas. A propósito, tal aspecto não passou despercebido a Allan Kardec, de tal forma que ele os indagou a respeito, conforme se observa na questão nº 359 da sua obra, previamente citada:

“Dado o caso que o nascimento da criança pusesse em perigo a vida da mãe dela, haverá crime em sacrificar-se a primeira para salvar a segunda? – Preferível é se sacrifique o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe”.

Voltando aos resultados da pesquisa do Datafolha, é fácil perceber que a maior escolaridade e a renda não têm ajudado a maioria dos membros desse grupo – basicamente eles pertencem à elite social – a desenvolverem maior compreensão acerca de temas sensíveis da trajetória humana como, por exemplo, o direito à vida.

Depreende-se a partir dos dados publicados que tais indivíduos possuem pouco interesse em encetar voos mais transcendentes do Espírito. O seu nível de alfabetização espiritual não parece ser muito elevado. Provavelmente movidos por interesses mais imediatistas de cunho material, a ideia de sacrifício por outro ser na dimensão ora analisada não lhes entra no terreno das cogitações ou os assusta vigorosamente – o que também é compreensível. Como bem pondera o Espírito Joanna de Ângelis, na obra Dias Gloriosos (psicografia de Divaldo Franco), “A criatura teme a dor”.

Mas como estamos geralmente atrelados a um passado tortuoso, temos outros deveres e responsabilidades a contemplar para a preservação da nossa própria saúde espiritual. Portanto, o melhor para nós é enfrentá-los logo. 

ANSELMO FERREIRA VASCONCELOS

8 de out. de 2016

NEM TUDO É MEDIUNIDADE


Realmente, sintomas físicos ou mesmo perturbações emocionais e psicológicas podem ser confundidos com mediunidade. Atendentes fraternos, dirigentes, coordenadores de estudos e mesmo palestrantes ou escritores, precisamos sempre levar em conta esse detalhe.

Mediunidade, como já aprendemos, não é doença, nem tampouco privilégio ou exclusividade dos espíritas. É, antes, potencialidade humana, apesar dos diferentes estágios em que se apresenta e das variáveis que afetam sua manifestação, inclusive de maturidade emocional, intelectual e do meio onde se apresenta.

Não é incomum pessoas tristonhas e deprimidas, muitas vezes dependentes de medicamentos, serem confundidas pela precipitação de dirigentes que alegam ser o exercício da mediunidade o único caminho de superação desses estados.

Indicam presença de espíritos perturbados ou perturbadores como causa do abatimento e apontam, equivocadamente, como causa uma suposta hipnose de espíritos, agravando ainda mais o quadro de aflição da pessoa que simplesmente precisa de ajuda...

Tais considerações foram inspiradas no capítulo 22 do livro Encontros com a Consciência, ditado pelo Espírito Irmão Malco ao médium Alaor Borges Jr. Referido capítulo descreve o diálogo de um atendimento fraterno. Aliás, todo o livro é composto de casos relacionados a ocorrências em centros espíritas, inclusive com muitos ensinos de Chico Xavier. No caso em questão, o Espírito que relata a ocorrência conclui com sabedoria: “(...) Passei a entender que, na condição de socorrista espiritual, temos que ter muito critério. Nem todo distúrbio nervoso, qual seja a depressão, síndrome do pânico, insônia e outras mais, estão relacionadas à presença de mediunidade (...)”.

Nesse ponto, interrompemos a transcrição para destacar, aí sim, caminhos de superação de estados de abatimento, na continuidade do raciocínio do autor: “(...) mas o serviço prestado pelo passe, as palestras, a água magnetizada e o vínculo com as atividades assistenciais da casa têm valor inconcebível. (...)”.

O destaque é nosso e proposital. Não percebemos que muito mais que focar nossa atenção em supostas influências de espíritos, embora elas sejam reais e contínuas, precisamos, isso sim, prestar mais atenção em nossas reações e procurar no Espiritismo o que ele realmente tem a oferecer: o consolo, a diretriz, o conforto, a orientação, a luz para nossos caminhos, a lucidez de seus fundamentos, caminhos claros de entusiasmo e superação das dificuldades que normalmente enfrentamos, até pela nossa condição humana. Recursos que encontramos, principalmente, nos estudos, palestras...

O livro é rico de casos assim. Mágoas, dinheiro, opiniões, relacionamentos, dificuldades, influências, inspiração, pressa, entre outros temas, vão surpreender o leitor. Exatamente pela clareza e concisão dos diálogos. Não deixe de conhecer. Trará benefícios para os grupos espíritas.

Orson Peter Carrara

7 de out. de 2016

Retrato de Jesus

  


Em Roma, no arquivo de Duque de Cesadini, foi encontrada uma carta de públio Lêntulus, Legado de Galiléia, do Imperador Romano, Tibério César. Eis a carta que é um retrato fiel de Jessus:

Existe nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente, de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado profeta da verdade e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, criador do Céu e da Terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus; ressuscita os mortos, cura os enfermos; em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto. Há tanta majestade no rosto, que aqueles que o vêem são forçados a amá-lo ou a teme-lo. Tem os cabelos da cor da amêndoa bem madura, distendidos até às orelhas e das orelhas até às espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes. Tem no meio da sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos Nazarenos; o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis. A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio; seu olhar é muito especioso e grave; tem os olhos graciosos e claros; o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade. Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele alguém se aproxima, verifica que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza; não se tendo jamais visto, por estas partes, uma donzela tão bela...
De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram. Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o tem como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de tua Majestade.
Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles que o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde.

6 de out. de 2016

Suicídio, uma visão médica e espírita


Só existe um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia.” – Albert Camus (1913-1960)

A afirmativa acima é do Prêmio Nobel de Literatura de 1957 e se encontra no livro O Mito de Sísifo, cujo tema central é o suicídio.1 Se essa proposição parece exagerada, em sua essência guarda verdades, que devem ser refletidas de forma séria e profunda. Não se pode negar que, se não é o único “problema filosófico verdadeiramente sério”, é um dos maiores, levando-nos a pensar em questões fundamentais como o sentido da vida humana e a continuação do existir.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) lançou em setembro de 2014 um suplemento intitulado Preventing Suicide – a Global Imperative2 (em tradução livre, Prevenindo o Suicídio – um Imperativo Global). São as estatísticas mais recentes sobre o tema, referentes ao ano de 2012, as quais revelam a magnitude do problema. Naquele ano, 804 mil pessoas tiraram a própria vida, número que excede as vidas perdidas por homicídio e guerras juntos e equivale a uma morte a cada 40 segundos. Nesse número, obviamente, não são contabilizadas as tentativas, mas somente as mortes consumadas. Em termos de tentativas, tem-se uma a cada dois segundos.

Em números absolutos, o ranking dos países é liderado pela Índia, totalizando número superior a 258 mil mortes. O Brasil ocupa a preocupante oitava posição com quase 12 mil suicídios por ano, média de 24 mortes por dia. Outros dados importantes trazidos pela OMS indicam que se trata da segunda causa de morte entre pessoas na faixa etária de 15 a 29 anos, ou seja, jovens em idade produtiva. Os dados também revelam que 75 % de todos os suicídios de 2012 ocorreram em países pobres ou em desenvolvimento. Os números, assim, são imperativos em comprovar a importância do tema e de que se vive um verdadeiro problema filosófico e de saúde pública.

Mas afinal, por que tantas mortes? Por que as pessoas cometem suicídio? Os suicidólogos, especialistas no assunto, atestam que mais de 90% das pessoas que cometem suicídio são portadoras de algum transtorno mental, o qual seria possível ser diagnosticado e tratado. Na lista têm-se, em especial, os transtornos do humor (depressão e transtorno afetivo bipolar), abuso de substâncias ilícitas (álcool e drogas), transtornos de personalidade e esquizofrenia. Transtornos dessa natureza aumentam os índices de suicídio, sobretudo quando não há tratamento adequado. No entanto, não se deve esquecer uma das maiores chagas da Humanidade: o materialismo.

Os Espíritos Luminares, que sob a bandeira do Espírito de Verdade colaboraram na elaboração da Doutrina Espírita, indicam que a luta contra o materialismo é um dever e uma necessidade para a transformação moral da Humanidade. Allan Kardec, na Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, diz “que o materialismo, com o proclamar para depois da morte o nada, anula toda responsabilidade moral ulterior”.3 Despertar o ser para sua verdadeira essência, indicando sua natureza espiritual sujeita às Leis de Causa e Efeito e à Lei da Reencarnação, é tarefa das mais relevantes e que descortina um Novo Mundo e situa o Homem como sujeito do seu destino na construção da felicidade.

“A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio […]”.4 O Espiritismo, como Doutrina Consoladora, transforma a crença em saber, dizima as dúvidas e vence o materialismo, dando a conhecer as leis que regem o universo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo. A partir daí, foi e é possível conhecer as graves consequências de pôr fim à própria vida. O capítulo V, intitulado Suicidas, da segunda parte do livro O Céu e o Inferno,5 guarda importante material de estudo e desvenda o importante sofrimento post mortem.

O sofrimento vivenciado não é fruto de castigo divino, pois não existe esse artigo nas Leis Universais. É natural que o Espírito, ao se deparar com a realidade pós-túmulo e entender que a vida ainda “pulsa”, mergulhe nos abismos da própria consciência onde se encontram escritas as Leis de Deus.6 Transgredir as Leis de Deus é transgredir a própria natureza, causando assim profundo sofrimento moral. O Espírito percebe que a morte compreendida como extinção da vida não corresponde à verdade. A rigor, a morte está inserida nela e é a porta para o retorno à Pátria da qual saiu, voltou e sairá ainda na necessidade de evoluir sempre. Além disso, existem as consequências biológicas da complexa relação espírito-corpo, o qual, enquanto encarnado, se satura de fluido vital. Para que o desligamento ocorra por completo, o Espírito deve extinguir totalmente o fluido vital a fim de que possa dar continuidade à sua jornada como Espírito desencarnado. Em Memórias de um Suicida, psicografia de Yvonne A. Pereira, há o seguinte esclarecimento:

[…] Será preciso que se desagreguem dele [do suicida], as poderosas camadas de fluidos vitais que lhe revestiam a organização física, adaptadas por afinidades especiais da grande mãe natureza à organização astral, ou seja, ao perispírito, as quais nele se aglomeram em reservas suficientes para o compromisso da existência completa […].7

Daí as profundas e graves impressões sofridas pelo Espírito vinculado ainda ao corpo [1]físico por ter atentado contra a própria vida de forma violenta. São repercussões de ordem magnética que impactam o envoltório sutil do Espírito ou corpo espiritual, ou seja, o perispírito. Dado que tal envoltório corresponde à matriz biológica formadora do corpo físico, pode haver implicações futuras. Dificuldades no intercurso existencial e em encarnações posteriores, gerando limitações físicas e psíquicas não são incomuns. Entram em ação as Leis de Causa e Efeito na necessidade de reparar equívocos através da dor, maior aliada do processo evolutivo.

Eis o que afirma Léon Denis: “Fundamentalmente considerada, a dor é uma lei de equilíbrio e educação” e, assinala ainda, “necessidade de ordem geral, como agente de desenvolvimento, condições do progresso”.[2]Porém, em nenhum momento, o Espírito em sofrimento é abandonado à própria sorte. As Leis de Deus agem sempre a favor do Espírito imortal, acolhendo-o e aliviando suas dores para que possa progredir com confiança e fé em si mesmo e no Pai de infinita misericórdia. Assevera Jesus: “Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados. […] pois que é deles o Reino dos Céus”. (Mateus, 5:4, 6 e 10.)

A espiritualidade e a religiosidade são as ferramentas mais eficazes de prevenção ao suicídio e também as mais consoladoras. A Ciência caminha nessa direção e são inúmeras as pesquisas indicativas de menores taxas e atitudes mais negativas em relação a esse ato.[1] A data de 10 de setembro, indicada pela OMS, corresponde ao Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Seja ela um momento de reflexão para todos e, igualmente, de alçar uma prece em favor desses Espíritos em sofrimento, buscando a figura meiga do Nazareno…

[…] Desci, mas desci muito aos reinos inferiores…

Despertando no túmulo, escutei Os gritos da aflição de alguém que muito amei E que muito amo ainda… […] um amigo não esquece a dor de outro amigo que cai… Antes de me altear à Celeste Alegria, Ao sol do mesmo amor a Deus, em que te enlevas, Vali-me, após a cruz, das grandes horas mudas,

E desci para as trevas, A fim de aliviar a imensa dor de Judas.

O trecho acima do poema Amor e perdão, de Maria Dolores, psicografia de Francisco Cândido Xavier, descreve o diálogo do Mestre de Nazaré e Maria Madalena após o histórico dia do Calvário.[2] O Cristo, nos três dias que antecederam a “ressurreição”, buscou Judas, seu amigo amado, após o ato impensado do suicídio…

Jesus nunca nos esquece!



REFERÊNCIAS:

[1]PIMENTA, Danilo. A postura camu-siana perante o suicídio físico. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 22, n. 3, p. 281-288, jul./set. 2012.

[2]Preventing suicide: a global imperative. 2014

[3]KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 131. ed. 6. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2015. Introdução, it. IV, Resumo da doutrina de Sócrates e Platão, subit. 9.

[4]____. Cap. 5, it. 16.

[5]O céu e o inferno. Trad. Guillon Ribeiro. 61. ed. 2. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2015. pt. 2, cap. 5.

[6]KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 2. imp. (Edição Histórica.) Brasília: FEB, 2016. Q. 621.

[7] PEREIRA, Yvonne A. Memórias de um suicida. Pelo Espírito Camilo Cândido Botelho. 27. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2016. Cap. Vale dos suicidas, p. 27.

[8] DENIS, Léon. O problema do ser, do destino e da dor. 32. ed. 6. imp. Brasília: FEB, 2015. Cap. 26, p. 347-348.

[9] KOENIG, Harold. Espiritualidade no cuidado com o paciente. São Paulo: FE Ed., 2005. Cap. 1, p. 21.

[10] XAVIER, Francisco C. Coração e vida. Pelo Espírito Maria Dolores. São Paulo: Ideal, 1994. Cap. 14.

4 de out. de 2016

A criança e o ensino religioso


Responsabilidade das escolas?

Na década de 1940 havia nas escolas públicas do Ensino Fundamental um horário semanal destinado ao ensino religioso. Lembramo-nos, perfeitamente, dessa obrigatoriedade porque, como em nossa matrícula escolar constava a observação “espírita”, éramos levados para uma sala onde ficavam os alunos não católicos. Estes últimos constituíam, sem dúvida, a grande maioria e eram os únicos que recebiam, de fato, o ensino religioso, quase sempre ministrado por sacerdotes.

Recordamos que, em uma dessas oportunidades nas quais eram separados os alunos pertencentes a outras religiões (conforme declaração dos seus responsáveis), o diretor da escola identificou-nos como “espírita” e fez-nos o seguinte desafio: “Se você é espírita, faça com que nos apareça um Espírito”. O nosso acanhamento diante da suposta autoridade foi acompanhado pelas risadas dos presentes.

Decorrido mais de meio século, esse acontecimento não se repetiria, pois em nosso país desenvolveu-se grande respeito aos sentimentos e à compreensão religiosa de todos os cidadãos, ao lado de inequívoco avanço na divulgação da Doutrina Espírita. Nem mesmo nas escolas ditas religiosas haveria hoje ambiente favorável a semelhante e desrespeitosa atitude.

Permanece, entretanto, uma pergunta: deve o ensino religioso ser ministrado obrigatoriamente nas escolas? Orientam-nos os Mentores Espirituais que a resposta deve ser negativa. A moral religiosa é, primordialmente, de responsabilidade dos pais, sejam biológicos ou adotivos. Eis o que lemos em O Livro dos Espíritos, na questão 383: Qual é, para o Espírito [encarnado], a utilidade de passar pelo estado de infância?1

Resposta:

Encarnando com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, e que podem auxiliar o seu adiantamento, para o qual devem contribuir os que estão encarregados de educá-lo.1

Referindo-se ainda à infância, continuam os Espíritos Superiores na resposta à questão 385, da obra citada, pois nessa fase:

[…] É quando se pode reformar o seu caráter e reprimir seus maus pendores. Esse é o dever que Deus confiou aos pais, missão sagrada pela qual terão que responder.1

Caberia aqui outra pergunta: o que dizer das aulas ministradas nas casas espíritas, identificadas como evangelização da criança? A resposta é simples: o trabalho de evangelização à luz do entendimento trazido pela Doutrina Espírita constitui importante contribuição complementar para a educação infantil, além de proporcionar orientação aos pais.

Lembra-nos a educadora espírita Martha Rios Guimarães, em artigo publicado pela Revista Internacional de Espiritismo:

O maior patrimônio que os pais podem oferecer aos seusfilhos é uma mensagem que esclareça, oriente e equilibre. Essa mensagem, ao contrário dos bens materiais que oferecemos, não é perecível, e passará a fazer parte da bagagem imortal do Espírito. Alguns pais espíritas alegam que seus filhos devem utilizar o “livre-arbítrio” para escolher [ou não] a religião ou doutrina que seguirão em suas vidas. Esquecem-se, porém, que estão oferecendo liberdade de escolha a quem ainda não está preparado para escolher.[1]

Como consequência da imortalidade e da reencarnação escreve-nos, em Reformador, o esclarecido articulista Ricardo Di Bernardi:

A criança, que recebemos em nosso lar, não é um bloco em branco onde podemos escrever qualquer mensagem ou ditar qualquer conteúdo; ao contrário, é um livro com inúmeros capítulos já escritos por ela mesma, vindo agora solicitar auxílio para que dê continuidade à história de sua vida […].[1]

São incontáveis as mensagens que nos chegam do Mundo dos Espíritos alertando-nos para a responsabilidade que nos cabe na educação da criança, que deve ser alicerçada na realidade espiritual da vida. É urgente a necessidade de empregarmos todo o esforço possível nas tarefas de aceleração da transição planetária para um mundo de regeneração. Esta realidade está sendo demonstrada pela encarnação, cada vez mais numerosa, de Espíritos amadurecidos no exercício da fraternidade.

Entre as mensagens a que nos referimos, destacamos o texto de Emmanuel trazido pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier:

– A melhor escola ainda é o lar, onde a criatura deve receber as bases do sentimento e do caráter. Os estabelecimentos de ensino, propriamente do mundo, podem instruir, mas só o instituto da família pode educar. É por essa razão que a universidade poderá fazer o cidadão, mas somente o lar poderá edificar o homem.[1]

REFERÊNCIAS:
1 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 4. ed. 2. imp. Brasília: FEB, 2014.
2 GUIMARÃES, Martha Rios. Educação espírita começa no lar. Revista Internacional de Espiritismo, p. 222, maio 2016.
3 DI BERNARDI, Ricardo. Educação infantil, sexualidade e espiritualidade. Reformador, ano 134, n. 2.242, p. 47(45)-48(46), jan. 2016.
4 XAVIER, Francisco C. O consolador.Pelo Espírito Emmanuel. 29. ed. 3. imp. Brasília: FEB, 2016. Q. 110.

21 de set. de 2016

Celibato e castidade


É possível seguir Jesus, evidentemente nos limites que o nosso estágio evolutivo atual permite, não sendo celibatário? 

Perfeitamente, por que não? Kardec, por exemplo, era casado. E muito bem-casado com Amélie Boudet, o que não o impediu, mas, muito pelo contrário, o sustentou na luta pela codificação e divulgação da Doutrina Espírita, revivendo o Cristianismo na sua pureza doutrinária. Portanto, ele seguiu Jesus sem ser celibatário.

Mudemos o enfoque. É possível seguir Jesus não sendo casto, considerando, da mesma forma, os limites que nossa evolução atual nos enseja? Não. Não é possível. E não é possível porque castidade, ao contrário do que muitos pensam, não se refere simplesmente à ausência de relacionamento sexual, mas sim de uma pureza interior que vai muito além da abstinência de sexo. Por essa pureza interior passa o bom emprego do sexo, onde um não transforma o outro no objeto de satisfação de seus instintos, mas onde uma pessoa se completa e completa a outra dentro de um clima de bem-querer onde só é possível ser feliz mergulhado na felicidade que emana do outro, e cujo autor somos cada um de nós.

Jesus, muito além de celibatário, era casto. Sua pureza moral não pode ser seguida com uma simples ausência da atividade sexual que muitas vezes leva o indivíduo ao desequilíbrio emocional, a exemplo de uma gigantesca represa que, quanto mais é contida, mais corre o risco de se romper na pedofilia, no estupro e tantos outros crimes que o sexo reprimido e desequilibrado enseja.

Chico Xavier e Divaldo Franco, para tomarmos exemplos dentro da Doutrina Espírita, optaram pelo celibato, face aos inúmeros compromissos que trouxeram junto à família espiritual de nosso planeta. Só que não ficaram apenas no celibato. Viveu o primeiro e vive o segundo também a castidade que a evolução alcançada pelos dois permite.

Albert Schweitzer era casado e casto. E exatamente por ser casto foi capaz de se entregar a tratar de leprosos no continente africano; a não pisar sobre uma simples flor silvestre por respeitar-lhe a existência e o direito à vida; a amar profundamente aos animais por entendê-los como criaturas de Deus e com o direito a viver, enquanto presenciamos motoristas insensíveis direcionando o veículo que dirigem, de forma irresponsável, para cima de uma pomba que busca o seu alimento numa via pública ou em direção a um cachorro abandonado de rua pelo simples prazer de tirar uma vida! Dia desses presenciei um motorista em alta velocidade na área urbana gritando com um cachorro que quase foi atropelado impiedosamente ao atravessar de um lado para o outro daquela via, como se o animal tivesse consciência de que atravessava uma rua. Poderia muito bem ter feito o mesmo com uma criança ou com um idoso com dificuldades de locomoção. Esse último não tem a castidade para seguir Jesus, por enquanto.

Martin Luther King Jr. era casado e casto para seguir Jesus a ponto de entregar a sua própria vida defendendo os direitos de nossos irmãos de cor de pele diferente da branca, como se esse tecido superficial que reveste nosso corpo não estivesse destinado à morte como todos os outros, mais dia, menos dia! Ele teve a castidade suficiente para seguir Jesus.

É impossível falar sobre celibato ou castidade sem que o tema sexo nos venha à mente. O que será que a Doutrina Espírita pode nos orientar a respeito? Vejamos as lições de Emmanuel contida no livro O Consolador, questão 184:Não devemos esquecer que o amor sexual deve ser entendido como o impulso da vida que conduz o homem às grandes realizações do amor divino, através da progressividade de sua espiritualização no devotamento e nos sacrifícios.

Haveis de observar que Deus não extermina as paixões dos homens, mas fá-las evoluir, convertendo-as pela dor em sagrados patrimônios da alma, competindo às criaturas dominar o coração, guiar os impulsos, orientar as tendências, na evolução sublime dos seus sentimentos.

Examinando-se, ainda, o elevado coeficiente de viciação do amor sexual, que os homens criaram para os seus destinos, somos obrigados a ponderar que, se muitos contraem débitos penosos, entre os excessos da fortuna, da inteligência e do poder, outros o fazem pelo sexo, abusando de um dos mais sagrados pontos de referência de sua vida.

Depreende-se, pois, que, ao invés da educação sexual pela satisfação dos instintos, é imprescindível que os homens eduquem sua alma para a compreensão sagrada do sexo.

Quando tivermos conseguido essa compreensão sagrada, o celibato será uma condição absolutamente dispensável em todo aquele que decidir seguir Jesus, pois que terá se iniciado no estado da castidade indispensável para segui- lo.

RICARDO ORESTES FORNI