15 de dez de 2015

O PERIGO DA IDOLATRIA NO MEIO ESPÍRITA! OS DIVALDIANOS!




Quando li este texto de "O Consolador", fiquei bastante interessado, afinal, nunca compreendi tamanha idolatria por meio de muitos espíritas, que falam de Divaldo Franco por exemplo, como se estivessem falando de alguém quase extraterrestre, sublimado, acima do bem e do mal. Algumas vezes me olham até com certo estranhamento, quando me perguntam: Você vai ver Divaldo aqui, ali ou acolá? Quando digo que não vou, ouço: Não vai? Como assim? Todo mundo da casa vai! Acontece uma cobrança exacerbada, pois eu como palestrante e divulgador espírita, tinha que participar destes eventos. Vamos ao texto do consolador e confesso que fiquei muito feliz em saber que a preocupação com idolatria no nosso meio espírita, está sendo questionado.

Por enquanto pertencemos a uma época instável e compomos, no geral, uma sociedade instável. Porém, ser moderno não é apenas estar vivendo atualmente , mas também procurar compreender o que denuncia nosso Zeitgeist, ou seja, tentar discernir os ecos do plano invisível que guiam os padrões do existir no plano visível – e, portanto, os comportamentos sociais não são apenas “eventos externos”, eventos da esfera privado-público, mas também “internos” e como ocorrências ou fatos da alma.

Por isso somos obrigados a tornar conscientes motivos e/ou convicções que no geral estão a orientar nossas vidas para que possamos viver “menos” às cegas, mais conscientes em relação a nós mesmos, nossos deveres, tarefas, compromissos e para que não sejamos escravos da biografia alheia.

É fato que as pessoas na Antiguidade tinham por hábito cultuar deuses. Não sem razão, Jung perguntou para onde foram os deuses depois que deixaram o Olimpo, e ele mesmo adivinhou que tinham ido para o plexo solar. Mais tarde, quando os homens descartaram as catedrais medievais – e o culto a reis e papas –, o mesmo Jung escreveu numa carta que eles, os ocidentais,despencaram no abismo do Si-mesmo.

Em consequência, embora a diversidade de facetas da experiência moderna, uma há que chama a atenção, porquanto hoje (como no passado) os homens estão a cultuar deuses, mas estes agora estão metamorfoseados de líderes políticos, atores, jogadores de futebol, celebridades em geral e, no contexto espírita, celebridades espíritas!

Sem alarde, sabemos, através de estudos e pesquisas sérias, que grande parte da população mundial sofre nos tempos de agora, em maior ou menor grau, da síndrome do culto à personalidade. Além disso, os adolescentes, insinuam os estudos dedicados ao tema, são os mais suscetíveis ao transtorno. Mas particularmente observo muitos adultos preocupados com o ídolo...
Compreendo o respeito que se tenha a pessoas pela admiração que elas nos provocam quando realizam (e/ou realizaram) ações (obras) que nos afetam ou cativam em profundidade por qualquer razão ou motivo sensato. É humano e um belo tributo à pessoa, que terá seu nome inscrito na história de um povo, de uma comunidade, e, no nosso caso, nos registros espíritas...
Mas a meu ver isso basta. A idolatria não dá certo.
Cada um de nós pode, de tempos em tempos, regredir através de um padrão que polariza uma pessoa (no caso uma personalidade pública), tornando-se prisioneiro da arte de idolatrar. 

E o mínimo então que temos a fazer diante do risco das grandes forças regressivas dentro de nós, muito ligadas talvez ao antigo hábito de idolatrar ‘deuses ou bezerro de ouro’, é procurar retomar a consciência e se ater à prudente observação do poeta persa Rumi: “cada homem veio ao mundo para realizar um trabalho particular e esse é o seu propósito”. Quer dizer, mesmo “ele” [o ídolo] está fadado à realização de um trabalho particular e é um ser humano como qualquer outro.

Assim somos gratos a Francisco Cândido Xavier por sua fecunda mediunidade dedicada aos livros, por seus exemplos de consolo, caridade e humildade. Igualmente, sem olvidar que, segundo o próprio Jung, a coisa mais desastrosa sobre o inconsciente é que ele é inconsciente, somos gratos aos livros que alargaram nosso entendimento sobre o mundo interior, rigorosamente escritos pelo competente Espírito Joanna de Ângelis, e através da mediunidade de Divaldo Franco, cuja obra de assistência e de divulgação do Espiritismo pelo mundo é vasta e por si mesma denuncia o belo “trabalho particular” desse homem, trabalhador de Jesus.



Mas condutas que, no meio espírita, extrapolem o justo reconhecimento aos trabalhadores espíritas, infelizmente fazem aliança com o equívoco da idolatria. E creio que nenhum trabalhador espírita sério e mesmo Divaldo Franco mereçam ser alvos disso. Com ênfase, muito menos Divaldo Franco e no instante do seu crepúsculo... Tenho certeza de que ele, se pudesse, apenas pediria para ser reconhecido como um trabalhador que de forma luminosa completou sua tarefa e que honra a Obra de Jesus.

Então, espíritas, por que dar vazão à síndrome do culto à personalidade e, em consequência, a esses excessos que observamos na mídia espírita, quando há registros de reportagens ou escritos de qualquer natureza carregados de expressões superlativas e/ou adulações? A discrição e humildade são sempre sinais de maturidade espiritual e essenciais para um existir equilibrado.

Como aprendizes da desistência da necessidade egoica de identificação/comparação, isto é, a atitude de estar ligado àquele que não sou,mas do qual dependo para ser quem sou, o culto à personalidade é sempre algo que urge ser retificado e evitado, principalmente no contexto espírita (e aqui me refiro especialmente aos responsáveis pela imprensa espírita), pois somos convocados a procurar nos precaver contra maneiras vicárias de viver.

Sabemos que Jesus é o modelo de todas as virtudes. E quando em sua passagem se reconheceu Mestre (Professor), recusou o qualificativo de bom, afirmando que somente o Pai merecia esse adjetivo. Uma clara prova de humildade e também uma atitude veementemente pedagógica contra o culto à personalidade.
Por fim, em julho deste ano, Papa Francisco pediu a remoção de uma estátua que o retrata, e que fora colocada nos jardins da Catedral Metropolitana de Buenos Aires. Ele, segundo o jornal Clarín, pediu a um padre da capital argentina: “tirem a minha estátua de Buenos Aires, sou contrário ao culto à personalidade”.

Assim como o Deus espírita não é um ídolo, “mas aquela realidade que, como dizia Descartes, está na consciência do homem como a marca do artista na sua obra” (Herculano Pires), tratemos pessoas e trabalhadores espíritas como nossos irmãos (alguns mais experientes e, por isso, bem-sucedidos em suas tarefas e projetos), mas não como ídolos; afinal, o único modelo, e para todos nós, é Jesus, nosso Mestre e irmão mais velho, como bem esclareceu Francisco de Assis.

E que fique claro o objetivo deste escrito: o problema não é “Divaldo Franco”, trabalhador honesto e autor de uma obra dedicada à causa do Cristo bela e decente, mas sim os “divaldianos”. Meus professores diziam sempre que o problema dificilmente reside no “autor da obra”, mas no geral o “fator de complicação” está nos seguidores (pensemos aqui em Marx e os marxistas; em Kant e os kantianos; em Lacan e os lacanianos etc.). Com exceções, é claro, muitos seguidores correm o risco do fanatismo. E isso diz respeito também a uma das facetas da idolatria, e que pode mascarar-se como ideologia etc. 

O culto à personalidade espírita é um desserviço à divulgação da Doutrina, especialmente com o advento da Internet e mesmo das redes sociais. Poderíamos então evitar cultuar espíritas, estejam eles vivos ou mortos (vida além da vida). Senão corremos o risco, principalmente no Brasil, de observamos um “Espiritismo” polarizado nas figuras de “Chico e Divaldo” e isso não é saudável, pois muitos outros contribuíram e contribuem para a difusão desta Doutrina luminosa.  E penso que nós temos o dever de analisar as coisas de maneira serena e compreensiva, mas é preciso dar nosso testemunho sempre. E o Espiritismo, como uma Doutrina evolutiva, não pode por ingenuidade/imaturidade anuir com a idolatria. Fiquemos, pois, com um só Modelo: Jesus.

O Consolador

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