9 de mar de 2017

AMBIÇÃO



Era noite. O mentor Silvério Pires recomendou-me esperá-lo por instantes. Em
seguida, veio a mim explicando: Augusto, temos serviço urgente. Venha comigo. Trata-se de
um pedido de mãe devotada, em apoio de um filho enfermo. Obedeci, de imediato, mesmo
porque o orientador é um desses professores diletos a que nos vinculamos por afetuoso
reconhecimento.
Alguns minutos voaram e atingimos um palacete de primorosa estrutura, cercado
por jardins que brilhavam ao luar, dentro da noite. Entramos. O mentor parecia familiarizado
com os mínimos recantos do solar, enriquecido de tapetes e telas raras. Em aposento próximo,
mobiliado segundo os hábitos portugueses do século XVIII, um homem, aparentando cinqüenta
janeiros, escrevia e escrevia... Porque estacássemos, de repente, perguntei surpreso ao meu
condutor:
- Onde está o doente?
O amigo fez um gesto de proteção, sobre a cabeça do homem que me era desconhecido e
acentuou:
- Este é o irmão Celestino que nos requisita assistência.
Fitei o desconhecido, da cabeça aos pés e não lhe notei qualquer anormalidade. Entretanto, o
mentor solicitou-me:
- Tome papel e lápis e copie a carta em andamento. Trata-se de um estudo que nos cabe fazer.
Sem vacilar, passei a escrever o texto que o desconhecido produzia à nossa frente.
Era uma carta que ele provavelmente endereçava a algum irmão distante, e assim dizia: "Meu
caro Aprígio: Segure os cinqüenta mil sacos de arroz no armazém número dois e aguardemos
mais preço. Os dez mil litros de óleo para cozinha, mantenha você em estoque e os dois mil
sacos de café em grão guarde no armazém quatro. Não venda bulhufas. Mais algumas semanas
e estaremos numa boa. Tudo isso terá preços altos, nos próximos dias. E olhe: Não dê migalha
alguma a ninguém. Religiosos têm vindo aqui a me pedir socorro. Dizem que os tutelados deles
estão em carência. Até freiras já vieram aqui com petitórios. Não atenda a ninguém se você for
procurado. Esse negócio de religião e caridade já era. Um certo amigo chegou a me dizer que a
minha fazenda pela qual suei tanto, pertence a Deus e a mim, que eu não passo de sócio. Eu
queria que esse maluco visse os meus terrenos quando Deus estava aqui trabalhando sozinho.
Era mato e cobras em toda parte. Fique tranqüilo e nada de coração mole. Espero estar aí na
próxima semana. Até quinta-feira. Um abraço do seu irmão Celestino." Celestino, pois esse era
o nome de nosso anfitrião, colocou a caneta em lugar adequado e, logo após, levou a mão ao
peito. Gemia. Afigurava-se-me que ele sentia muita dor. Em dado momento, pressionou o
botão de uma campainha e estirou-se em larga poltrona. Um servidor apareceu. Celestino pedi
  

um coronário-dilatador e a presença do seu médico particular. O cardiologista surgiu com
presteza e determinou a remoção do doente para um hospital. Pires sentenciou:
- Devemos acompanhá-lo. Esta é a última noite de nosso amigo na vida física.
Internado, Celestino estava submetido a minuciosos exames. Silvério se dispôs à
retirada e disse-me simplesmente:
- Veja você. Tanta ambição e dentro de poucas horas o nosso amigo estará desencarnado, sob a
suspeita de enfarte. Amanhã viremos buscá-lo.
Nada mais acrescentou e eu fiquei a meditar sobre a lição recebida.


Da obra: Fotos da Vida. Ditada pelo Espírito Augusto Cezar,
através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier
  


Esta mensagem foi retirada do site
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